quarta-feira, 3 de abril de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Lançamento do livro sobre a Guerra do Contestado é no dia 11 de março

     Depois de dois anos de trabalho, nasceu meu primeiro livro. E quero compartilhar contigo esta experiência. No próximo dia 11 de março, 20h, estarei lançando a obra "Morte ao Caboclo".

Local: Associação Atlética Banco do Brasil - AABB
Endereço: Rua Desembargador Pedro Silva, 2809 - Coqueiros - Florianópolis/SC
Cep: 88080-701


Valor do livro: R$ 35,00
Conto contigo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

13/10/1912

     Por volta das 13h, o governador do Paraná, Carlos Cavalcante, chama o comandadante da Polícia Militar paranaense para uma reunião. A decisão já estava tomada: o pernambucano João Gualberto Gomes de Sá Filho levaria seus soldados até os campos de Palmas para combater um magote de sertanejos catarinenses, tidos por fanáticos, liderados por José Maria, apelidado de monge. Às 19h do mesmo dia, o coronel Gualberto encabeçava a marcha na direção de Palmas. Mais tarde o general Setembrino de Carvalho, que comandou o exército na Guerra do Contestado referiu-se assim ao deslocamento do contigente paranaense: "a marcha se fez como se faz sempre entre nós: algumas centenas de homens embarcando precipitadamente para o sofrimento e para a derrota".
         

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

07/10 no Contestado

     Nesse dia, o general Fernando Setembrino de Carvalho organizou as forças militares que atacariam os revoltosos do sertão catarinense. Dividiu as tropas em quatro colunas para fazer um cerco ao Vale de santa Maria e forçar a rendição dos sertanejos pela fome.

Coluna Norte: Sediada em Canoinhas, tinha por comandante o tenente-coronel Manoel Onofre Muniz Ribeiro. 
Coluna  Leste: Sediada em Rio Negro, era comandada pelo coronel Júlio César Gomes da Silva.
Coluna Oeste: Sediada em União da Vitória, tinha no comando o coronel Eduardo Artur Sócrates.
Coluna Sul: Com sede em Curitibanos, era comandada pelo tenete-coronel Francisco Raul Estilac Leal. 

O plano de Setembrino lograria êxito. Achando que estavam em um lugar inexpugnável, as forças sertanejas foram isoladas em Santa Maria. Sem ter como sair, levando chumbo de todos os lados, sucumbiram pela fome e pela doença.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

06 de outubro na história do Contestado

     No dia 06/10/1900, Santa Catarina apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma exposição histórico-jurídica sobre a questão de limites com o Paraná. Elaborado pelo conselheiro Manoel da Silva Mafra, o documento foi replicado pelo Paraná por meio da ação originária de reinvindicação impetrada pelo conselheiro paranaense Joaquim da Costa Barradas. O duelo seria vencido pelos catarinenses, que passariam a administrar um território com características completamente alheias às suas. "Arrisco dizer que, de cada dez pessoas aqui de Canoinhas, sete se consideram paranaenses", afirmou o historiador Fernando Tokarski no mês passado, quando visitei a cidade que um dia pertenceu ao Paraná.

Fonte: Cronografia do Contestado - Fernando Tokarski.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Parabéns, Vicente Telles

     Foi no dia 5 de outubro de 1931 que ele nasceu, no município de Palmas/PR. Filho de Heleodoro Telles da Rocha e Isabel Olímpia da Silva, Vicente Telles radicou-se no Irani e é hoje o folclorista brasileiro mais envolvido no tema Guerra do Contestado. Foi ele quem fundou, lá na beira da BR-153, três quilômetros depois dessa cruzar a BR-470, o Museu Histórico do Contestado. Duvido que o estabelecimento não seja o lugar do Irani mais comentado e divulgado no mundo. Entusiasmado, Vicente foi o cara que despertou no ex-governador Esperidião Amim o interesse pela divulgação do Contestado. Amim encampou a ideia e, com a ajuda de historiadores catarinenses, mandou que fossem colocados marcos em ardósia nos locais onde ocorreram os principais combates da guerra que massacrou tantos brasileiros no sertão catarinense entre os anos 1912 e 1916. Parabéns, Vicente Telles. Tivesse cada Estado do Brasil um cidadão como você, nossa história teria muito mais brilho, muito mais cor, muito mais viço. Felicidades, amigo velho.
(fonte: Cronografia do Contestado - Fernando Tokarski)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Dica de livro

Cronografia do Contestado - apontamentos históricos da região do Contestado e do Sul do Paraná é um livro indispensável aos estudiosos, curiosos e outras coisas mais do tema Contestado. O autor, meu amigo  professor Fernando Tokarski, morador de Canoinhas/SC, dedicou seis anos de pesquisa à obra.  O resultado foi o nascimento de um verdadeiro guia de datas marcantes da Zona Contestada. Mês a mês, o leitor poderá acompanhar o que aconteceu - quando, onde e como - no lugar que um dia foi disputado por Santa Catarina e pelo Paraná. São  quase trezentas páginas que merecem um lugar na tua estante, paisano. Tokarski é um tipo em extinção - o cara que vai às fontes, que faz pesquisa de campo. Então, boa leitura.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Floripa, estou voltando

     Depois de uma noitada regada a refrigerante e pizza, na companhia dos meus amigos do seminário diocesano, recolho-me ao catre por volta de 1h. Acordo duas horas depois sob os acordes celestes, literalmente. A trovoada, seguida de grossos pingos, encharca Caçador. É, não adiantou mandar lavar a charrete, constato. Deixo o município que mais produz tomate por hectare do Brasil por volta de 8h. Mais uma vez perco o café da manhã. Pães de batata me esperam na padaria. A chuva persistente faz os 15º ter cara de oito. Quarenta quilômetros depois, estaciono no hospital de Lebon Régis. Lá, converso com Rose Maria, filha de João Ventura. Ele morreu aos cem anos de idade. Rose é filha do segundo casamento de Ventura. "Quando meu pai casou com minha mãe, ele já tinha setenta anos; ela, vinte e cinco. Minha mãe teve quatro filhos, duas meninas e dois 'piá'", informa a auxiliar de serviços gerais. Como um bom nordestino, que perde o amigo mas não o chiste, brinco: "que menino danado, hem". Rose ri como se estivesse sem fazer isso há décadas. Mais descontraída, diz sem deixar de lado o tom respeitoso comum aos moradores da região: "Eu nasci naquela casa que o senhor conheceu".
Rose Maria
     O avô de Rose, Chico Ventura, foi, ao lado de Euzébio Ferreira dos Santos, os principais aglutinadores da religiosidade cabocla do Contestado. Vale ressaltar que o ajuntamento comandado pelos dois era eminentemente religioso. Com o passar do tempo a coisa foi tomando aspecto de revolta popular. Rose diz que o pai pouco falava com a família sobre a guerra. "Ele contava mais para os outros, com a gente quase não contava", observa. "Eu lembro que ele dizia que era muita festa", completa. Depois arremata: "mas depois veio muito sofrimento, muita morte; aí a fome foi grande". 

    A chuva não dava trégua quando seguí para Curitibanos. O zigue-zague da estrada tinha um ingrediente - as panelas no asfalto. Por volta das 10h30 dei uma passada no Museu Histórico Antônio Granemann de Souza, de Curitibanos. De lá, fui à residência de Altair Goeten de Morais, um pesquisador local do Contestado. Uma hora de bom papo passa rápido. Enquanto o Bee Gees cantava "Feel I'm goin' back to Massachusetts", a bússola no painel apontava a direção leste - Floripa, estou voltando. 
Museu Granemann em Curitibanos
Aldair  Goeten
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ô, Carol, devolve as placas, vai

     Perdizinhas e Caraguatá foram o meu destino hoje. Quando saí de Caçador, por volta das 8h, o sol ainda não tinha forças suficientes para desfazer o tapete de nuvens que impediam o brilho e o calor dele. 12º. Segui na direção de Lebon Régis. Poucos metros após o quilômetro 117 fica a entrada para Perdizinhas. Buracos, buracos, buracos. Bastaram três quilômetros e meio para eu avistar, do lado direito, uma construção de madeira. Em frente, sob uns pés de pinheiro americanos, está o carcomido marco do Contestado. Quatro das sete placas que formam o monumento estão faltando. "Foram as pessoas que vieram de Curitiba quem levaram", denuncia Roseli Marafigo, moradora da casa que fica nos fundos do paiol. E completa: "veio um ônibus de Curitiba, faz uns oito anos, e sairam andando por aí, conhecendo tudo. Uns deles arrancaram as placas. Meu piá viu e disse que eles não podiam fazer aquilo, mas eles disseram que iriam fazer umas cópias. Meu piá era pequeno e não pôde fazer nada. No outro dia eu fui à cidade (Lebon Régis) e registrei um boletim de ocorrência na delegacia". Perguntei se ela sabia alguma coisa sobre o grupo paranaense e ela respondeu que "só sei que o nome de uma mulher era Carol, só isso".
Roseli Marafigo
     Sem ter a menor noção de quem era Carol, e muito menos de como encontrá-la, fui um pouco mais à frente e entrei numa estrada da largura de um sapato número 36. Antes, claro, fotografei a taipa ao lado do marco do Contestado. Historiadores afirmam que ela foi usada pelo exército como crematório de caboclo. Roseli garante: "pode cavar lá dentro que o senhor achará ossos".
Taipa serviu de "microondas" usado pelo exército
Taipa, agora, só recebe vegetação
     Espremendo o carro, alcanço a antiga casa de João Ventura. Filho de Chico Ventura, um dos primeiros líderes dos sertanejos religiosos, João foi tamboreiro do reduto. A construção, que sobreviveu a guerra, está lá. Um símbolo da resistência cabocla. De alteração só tem uma varanda coberta por telhas de amianto. Entrar é mergulhar num portal que remete o visitante aos anos 1910. Toda feita em madeira - exceto um cubículo erguido anos depois, na frente -, foi completamente preservada. A maioria dos cômodos não possuem iluminação artificial. Réstias de sol entram pelas frestas e dão ao local um aspecto mais antigo ainda. O dia ensolarado facilita minha incursão. Peço permissão para subir ao sótão. Sou autorizado, não sem uma reserva: "cuidado com os degraus". Pé ante pé, alcanço o assoalho superior. Por uma rótula, consigo ver a vereda que traz àquela que foi o lar de Ventura. O cheiro no interior da residência do velho líder dos rebeldes é uma mistura de vários aromas. De cara, identifico três: tabaco, mofo e fumaça.
Casa de João Ventura - Perdizinhas/Lebon Régis
Eu estive lá, na casa de Ventura
Interior de um dos quartos
     O sol já reinava absoluto no chão que um dia abrigou os caboclos rebelados, quando deixei a casa que morou João Ventura. Fui à Caraguatá. Pense numa estrada ruim. Multiplique por 27. É a que vai para São Sebastião do Sul. O lugarejo já teve diversos nomes - entre eles, Caraguatá e São Sebastião. Do asfalto até o povoado são exatos onze quilômetros. Que saudade da motoca. Tinha que dirigir a 20km/h. Na moto, ano passado, eu andava a 80 sem correr risco - exceto a possibilidade de cair e quebrar uma perna, os dois braços e 72 costelas. A verdade é que a estrada é feita para motocicletas e caminhões que carregam madeira. Se não fosse o visual, seria um terror.
Estrada para caraguatá
São Sebastião é um lugarejo com uma meia dúzia de três ou quatro casas. Mato à dentro, no entanto, elas ganham número que chega aos três dígitos, segundo moradores do lugar. Não tem uma escola, sequer. Grande mesmo só o cemitério, que tem até lápide feita toda em madeira.
Lápide em madeira
Aproveitei para registrar minha passagem pelo povoado atacado pelo exército na guerra fratricida que exterminou moradores do sertão catarinense no início do século passado.
Opa, o Gile foi lá, sim senhor
Depois foi só pegar a estrada de volta.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Professora, merendeira, zeladora e diretora

     Hoje fui a Santa Maria, no município de Timbó Grande. Despertei com a sonzeira do Padre Lídio, mas voltei a dormir e só acordei às 7h15. Corri para o chuveiro, tomei um banho e me mandei. Antes, passei numa padaria. O sono me fez perder o café no seminário. Saí da cidade às 8h, com 11ºnas costas. E fui pelo mesmo caminho que percorri há um ano. E dá-lhe buraqueira. Quando deixei o asfalto e entrei na estrada de chão, tratei de perguntar a um motorista de caminhão sobre a situação do trecho, pois os muitos pontilhões da rodagem costumam ser levados pelas enxurradas. Ele foi no caroço da questão: "a turma puxa madeira, né?". Estrada de madeireiro, meu chapa, não pode ficar obstruída, pensei e fui com fé. 
Pontes e pontilhões são um risco em época de chuva - ponte sobre o rio Caçador Grande
      O termômetro atracou-se com os 11º. Nove horas da manhã e necas da temperatura subir. Encontrei um senhor a cavalo. Sebastião Alonso, 79 anos mora em Santa Maria e estava indo para São Sebastião. "Faço o trecho em cinco horas", orgulhou-se. Dizendo ser bisneto do famoso Chico Alonso, ele desconversou muito até contar duas ou três coisas relacionados à guerra dos caboclos. E explicou o motivo da relutância: "não gosto de falar porque fico emocionado. Eles (os caboclos) sofreram barbaridade. Meu avô contava (e aí ele deixava escapar o verdadeiro laço com Chico Alonço) que uma bainha de facão de couro cru dava um almoço". 
Sebastião Alonso
Chueguei a Santa Maria e fui ver o monumento do Contestado. O marco, que no ano passado encontrei feito pedaços - e que o prefeito de Timbó Grande prometeu reformar - continuava lá, mais despedaçado do que coração de flamenguista depois de nove jogos sem uma vitoriazinha sequer. Ao lado, a escolinha estava funcionando. A criançada brincava no pátio. Perguntei pela professora e eles informaram que ela estava lavando a louça da merenda. Mari Luíza, 49 anos é moradora do lugar e leciona desde 1994. Formada por uma faculdade à distância, acumula as funções de professora, zeladora, merendeira e diretora da escola. E recebe apenas o salário de professora - R$ 500 e pouco. Para piorar, os alunos são de idade e séries diferentes. Todos unidos por uma única professora dentro de uma sala de aproximadamente 50m2. E que está reduzida de tamanho devido a um rombo no assoalho. Olho para o "futuro da nação" e imagino a dificuldade que será o futuro de Santa Maria. 
Luiza e seus alunos
Dar aula, preparar a merenda e lavar a louça
Assoalho comprometido reduz espaço da sala
Em Timbó Grande conversei com o secretário de agricultura do município, Édson Luiz, e ele disse que "tem três escolas em Santa Maria; deve ter uns cem alunos". De quebra, informou o nome da zeladora da escola. Como houve muitas mortes por lá, na época da guerra, imaginei que a tal zeladora deve ser um fantasma. Encontrei o operador de máquinas da prefeitura Erico Groskopf, 47 anos. O salário dele? R$ 729,00. E pensei comigo: é muita teimosia querer ser professor no Brasil. Fui ao secretário de educação, José Guedes, e ele discordou da versão contada por Édsom, confirmando a situação que presenciei. Quando perguntei se a professora não estava tendo acúmulo de função ele foi categórico: "sobre isso não posso responder". De cara amarrada, encerrou o assunto. O Contestado, paisano, está com o passado comprometido e com o futuro hipotecado. Depois completo esta postagem.
Timbó Grande