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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Décimo dia - A história pulsa

O centro de Curitibanos, na época da guerra, era aqui
Décimo dia da expedição
Destino: sede da antiga superintendência (prefeitura) de Curitibanos incendiada pelos sertanejos.
Distância: 100 km
          Choveu durante toda a noite em Caçador. A cidade estava precisando da água, pois a estiagem durara quase dois meses. E os sertanejos catarinenses não poderiam suportar mais um mês de seca, conforme ouvi de vários agricultores do lugar. Confesso que as confissões dos trabalhadores fizeram-me lembrar da força e da coragem dos moradores do sertão nordestino. Os caras agüentam até mais de um ano sem chuva. Quando um pecuarista de Timbó Grande me contou que várias reses haviam morrido e que era preciso da ajuda do governo, caso não chovesse, recordei das críticas – duras, diga-se de passagem – que ouço à política do governo Lula. Vezes sem conta escuto gente bradar: “esse papo de bolsa família é puro assistencialismo. Quem quiser que trabalhe para ganhar dinheiro”. Menos de dois meses de estiagem são mais do que suficientes para provar que pimenta nos olhos dos outros é colírio. E se você, nobre cúmplice meu, é meio desbocado, pode substituir os olhos e o colírio por outras palavras mais próprias. Acordei de madrugada e, egoisticamente, pedi a Deus para que fechasse as torneiras no dia seguinte. É brabo pilotar na chuva.
 12 reses haviam morrido nos últimos dez dias aqui
          Às sete horas fiz meu desjejum na companhia dos meus novos amigos. Minhas preces não foram ouvidas; a chuva persistia. Lá pelas oito o aguaceiro amainou e pude pegar a estrada. Não sem antes me despedir dos companheiros de QG. Dei uma parada na oficina e pedi para apertar a corrente, jogar um óleo nela e passar graxa. Depois foi só alimentar o alazão e deixar Caçador para trás. O asfalto molhado, e melado de barro, era uma ameaça à motocicleta. As muitas estradas vicinais são puro barro vermelho. Quando chove, o barro vira uma pasta que gruda nos rodados dos caminhões. Conclusão: os caminhões deixam um rastro enlameado no asfalto. É um sabão. Menos de vinte quilômetros de percurso foram suficientes para me alertar do perigo que me aguardava. Enquanto descia um morro vi alguns galhos de árvore no meio da pista. Diminuí a velocidade e quando cheguei à curva me deparei com uma carreta tombada. O motorista, que seguia no sentido Curitibanos-Caçador,  perdeu-se e invadiu a mão contrária. Parei a moto e logo chegou uma viatura da polícia. O caminhoneiro saiu ileso. O guarda me alertou: “Tá chovendo em todo o Estado. Prepare-se para pegar muita chuva”. Agradeci o aviso e segui.

Um aviso para ficar experto
          Quando cheguei a Lebon Régis fui até a casa de dona Nercina, a neta de Neco Pepe que tem um museuzinho em casa. Quando eu a visitara, no domingo, falei-lhe de um livro que contava a história do avô dela. Prometi-lhe fazer uma cópia e, quando fosse para Curitibanos, passaria passaria em sua casa e lhe entregaria. Nem a chuva forte impediu-me de cumprir a promessa, afinal de contas não sou nenhum presidenciável. Aproveitei o ensejo e fiz algumas fotos de uns bairros onde os moradores descendem dos caboclos espoliados da Guerra do Contestado. Quanta pobreza.
Bairro onde a maioria dos moradores descende dos caboclos da guerra
          Na beira da estrada que liga Lebon Régis a Curitibanos tem uma capelinha em homenagem a São João Maria. Claro que fiz umas fotos. Os 50 quilômetros entre as duas cidades foram sacrificantes. A chuva apertou. Os buracos da estrada, embora pequenos, aumentavam o risco de queda. É que a lâmina d’água esconde os “marditos”. É preciso manter os olhos bem abertos e os pulsos firmes, caso contrário, mais um número para as estatísticas de acidentes de moto. Passava das onze horas quando cheguei a Bundaritibunda – é como costumo chamar a cidade onde nasceu meu amigo Bruno. Não é falta de respeito, acredite. É pura brincadeira. Falta de respeito pela cidade quem teve foi o coronel Albuquerque, antes, durante e depois da guerra do Contestado. Curitibanos foi incendiada pelos jagunços, frisam certos historiadores. Na verdade foram queimadas a sede da superintendência (prefeitura), o cartório e as casas dos correligionários do coronel Albuquerque. Visitei o museu, fiz algumas fotos do local onde ficava a antiga prefeitura e me mandei.  
Capela de São João Maria - Lebon Régis

Praça da República - Destaque para o museu

           Almocei em Lages, na casa de um casal muito querido. A senhora é descendente da família Ramos, a maior oligarquia catarinense no período da Guerra do Contestado. Por volta das 14 horas peguei a BR-282 com rumo a Florianópolis. A viagem transcorreu sem nenhum incidente. Passava das 17h quando subi a rampa do prédio em que moro. Estacionei a motocicleta, tirei a bagagem e dirigi-me ao elevador.  Um banho quente e demorado me esperava. Depois do banho, estiquei-me na cama e vi minha mente ser sacudida por pensamentos, sentimento e certezas. Foram dez dias de contato com uma história que ainda pulsa no sertão de Santa Catarina. Dez dias de convívio com pessoas simples que acreditam em um santo – João Maria – que não merece nem um email do Vaticano. Dez dias de mergulho em um lugar cujas pérfidas e avaras atitudes de homens públicos transformaram em vergonha. Dez dias no seminário diocesano de Caçador, cujos seminaristas e padres, sem exceção, jamais serão esquecidos do meu coração. Dez dias vendo a miséria de muitos se dobrando a riqueza exploradora e maligna de tão poucos. Dez dias nas terras em que andaram homens que não aceitaram se dobrar ao canhão do tirano dominador. Dez dias aprendendo que uma história, por mais que os governantes queiram apagá-la, pulsa. E pulsa. E pulsa. Há tempos eu não chorava.

"Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira..."

Legiao Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

domingo, 19 de setembro de 2010

Sétimo dia - "Se não for o pinus é o que? "

Sétimo dia da expedição


Destino: Santa Maria – Município de Timbó Grande
Distância: 42,5 km – 14 km de asfalto e 28,5 de estrada de terra

          Acordei um pouco antes das sete. Tomei café e conversei um pouco com meus amigos de QG. Saí de Caçador exatamente às 8h30. O frio era intenso devido ao vento forte e constante. Peguei o rumo de Lebom Régis, com destino ao vale de Santa Maria – reduto onde se travou o grande combate do exército. Saindo de Caçador eu segui placa no sentido do aeroporto. Um pouco antes do aeroporto vi uma placa que indicava Timbó Grande. O pedregulho sinalisava meu rumo. A estrada estava deserta. Minha companhia era o vento gelado. Ele não dava trégua. Vez por outra valsava na minha frente e a terra seca, castigada por quase dois meses de estiagem, espalhava uma poeira agitada em forma de redemoinho. Nem preciso dizer que a estrada era ainda pior do que a de ontem. Uma certeza me invadiu: para se abrigar por ali, os sertanejos queriam mesmo fugir de tudo e de todos. Sigo devagar, parando aqui e acolá para tirar umas fotos.

Entrada para Timbó Grande/Santa Maria


A festa do vento
Êta,estrada!
A estrada corta o rio ou é o contrário?

          Por volta das 11 horas chego ao lugar onde está o marco do Contestado. Daqueles colocados pelo governo de Espiridião Amim nos locais de combate. Fica do lado esquerdo da estrada, assim que se desce a serra. É bom sempre pedir informações aos moradores – são poucos, mas prestativos. O monumento estava destruído, as placas jogadas no chão. É o abandono da história, por parte dos governantes. Encosto cada placa na moto e faço uma fotografia. Se eu quisesse poderia levar para casa. Não havia ninguém para cuidar. Um morador local, João Soares, 29 anos, me disse que um caminhão da Celesc bateu no monumento quando manobrava. Segundo ele, já faz mais de três anos. Saí de lá e fui conhecer o cemitério dos jagunços. Quem me levou até lá foi Antenor Meireles Prestes, 58 anos, nascido e criado no lugar. “Meu avô foi jagunço. Ele contava as histórias do tempo dos jagunços e chorava. Começava mas não conseguia terminar. Foi muito sofrimento”, lembrou. Meireles me conduziu até o antigo cemitério. Na verdade, ao que sobrou da cidade dos pés juntos. A maior parte do local foi transformada em açude pelo proprietário, o ex prefeito de Timbó grande.
O que sobrou do marco do Contestado
Placas estão abandonadas

Açude invadiu o cemitério

Meireles - "Meu avô foi jagunço"
           Dalí eu fui para Timbó Grande, onde os jagunços se reorganizaram depois da destruição de Santa Maria. Na frente da igreja católica da cidade tem um marco do Contestado em perfeito estado de conservação. Para alguns historiadores, a igreja foi erguida exatamente no lugar em que ficava a casa de Adeodato, o último líder dos sertanejos. Em seguida fui entrevistar o prefeito de Timbó Grande, Valdir Cardoso dos Santos, 55 anos. Durante todo o trajeto pelo interior do município percebi a imensidão das plantações de pinus elliotis. Perguntei a ele se isso não causaria um desequilíbrio ambiental e ele respondeu que “se não for pinus vai ser o que? “ Pergunto o motivo do descaso com o sítio histórico e ele dize que é de Caçador e mora em Timbó apenas há 26 anos, e por isso não conhece bem a parte histórica do município. Comprometeu-se, porém, a restaurar o marco que está em Santa Maria. “O que tem na frente da igreja foi em quem restaurei”, informa o político e plantador de pinus. 
Igreja onde ficava a casa de Adeodato
Pinus, "Se não for ele é o que?"
           Só me restava voltar. Decidi retornar por outro caminho, pelo asfalto que conduz a Santa Cecília. Dei  uma volta enorme, mas o trajeto compensa porque a estrada é ótima e praticamente não tem trânsito. Ao passar em Lebom Régis fui visitar a casa de dona Nercina do Valle Rocha. O avô dela era padrinho de Adeodato e foi assassinado pelo chefe dos jagunços. Ela mora em uma casa edificada no mesmo local em que residia o avô, Neco Pepe.Nos fundos da residência tem um túmulo erguido no local onde o avô foi fuzilado pelo afilhado. “Foi uma covardia, assassinar o padrinho... Ele trabalhou para meu avô. O pai dele era compadre do meu avô...”,  indigna-se dona Nercina. Quando Adeodato matou Neco Pepe, incendiou a casa. A única coisa que não queimou foi um portão de imbuia. A peça está guardada até hoje dentro de um paiol – claro, fiz uma foto. Esse episódio é contado por Maurício Vinhas de Queiroz em seu livro Messianismo e Conflito Social. Depois de um ótimo café da tarde retornei a Caçador. Estacionei a moto no seminário um pouco antes das 18h30.
Neta de Neco Pepe preserva o lugar onde mataram seu avô


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Primeiro dia da Expedição Contestado - Bocejo do Astro rei

Olá, companheiros de viagem.

          Gente do céu, só agora consegui sentar para escrever sobre o primeiro dia da Expedição Contestado. Meu senso de respopnsabilidade me fez abrir os olhos exatamente às seis horas da manhã. Se quiseres, pode chamar esse senso de despertador do celular. O fato é que às sete horas e seis minutos acelerei na garagem. Contestado, aí vou eu. Graças a Deus não chovia em Floripa. Peguei a via expressa e dei de cara com um céu carrancudo para os lados de Joinvile e Blumenau. Será que vai chover?, pensei. Quando cheguei na 101 e virei rumo ao sul do Estado, tempo firme. Em Santo Amaro da Imperatriz, já na BR-282, encontrei  nuvens preguiçosas que ficaram para trás. Apenas embelezavam o pé da montanha. Tudo bem que não chovia, mas também nada de sol.


Alto da Boa Vista - Serra Geral

          Passando Águas Mornas cavalguei firme para conseguir subir a serra geral. Enquanto o motor da moto estrebuchava, eu me apercebia do porque que a serra serviu de divisor natural entre o litoral e o oeste de Santa Catarina. Quando cheguei ao alto da boa vista dei uma parada para fazer uma foto. Em pouco mais de uma hora venci o acidente geográfico que tanto dificultou a colonização de Serra acima. O litoral ficara. Durante todo o trajeto fui seguido por rostos risonhos. Falsos, mas risonhos. Candidato fulano, candidata siclana e até quem não era candidato sorria. Pelo menos fizeram-me companhia. Já passava das nove horas quando cheguei em Alfredo Wagner. Senti um bocejo do astro rei nas minhas costas. Dei uma olhadela para trás mas ela já se escondera em um edredon de nuvens.


Primeira placa sobre o Contestado - 300 km distante de
 Florianópolis - Município de Curitibanos - BR 470

          Às 10h10 parei em Lages. Hora de alimentar meu alazão. Tanque cheio, pé na estrada. Parada rápida para o pedágio de Correia Pinto. Saudações da BR-116. Que feio, Auto Pista, só uma cabine funcionando! Mais alguns quilômetros e cheguei na BR-470. Entei nela e rumei para Curitibanos. Dez quilômetros antes da cidade encontrei, pasme, a primeira placa sinalizando que o Contestado existe. Mas não simbolizava nada que ao menos lembrasse o conflito fraticida do início do século passado. Referia-se a um Contestado de águas termais, arquitetura histórica e festas típicas. Meio dia e um pouquinho - hora do Gile encher a pança. Lebon Régis veio a calhar. Mais 38 quilômetros pela frente e cheguei em Caçador. Foi aqui que as tropas do governo estabeleceram um QG, no tempo da guerra. As tropas vinham de trem e desembarcavam na antiga estação Rio Caçador. Aqui estabelecerei o meu QG. Faltava quinze para as três da tarde quando estacionei no seminário diocesano de Caçador. Fui recebido pelo padre João Casara, reitor do seminário.


Portal turístico de Caçador - Alusivo ao Contestado

          Troquei de roupa e fui fazer duas entrevistas. A primeira foi com o professor, com doutorado em história do Contestado, José Delmir Valentini. E o bate papo foi no Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado. De lá fui para a casa do professor e escritor Nilson Thomé. Aí foi uma aula de Contestado. Já passava das 22h quando avisei para ele que tinha que ir embora. "Acho que serei expulso do seminário hoje mesmo, Nilson", brinquei. Passei em uma lanchonete e forrei o estômago. Quando cheguei ao seminário o padre Gilberto Tomazi estava chegando também. Conversamos e falei da minha brincadeira com o Nílson. Ele riu. "As portas do seminário continuarão abertas para você", assegurou o sacerdote. Hora de dormir. Às 6h tem o despertar. No segundo dia da Expedição Contestado irei ao Iraní. Até.


Réplica da antiga estação - Museu do Contestado