Mostrando postagens com marcador Caçador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caçador. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Décimo dia - A história pulsa

O centro de Curitibanos, na época da guerra, era aqui
Décimo dia da expedição
Destino: sede da antiga superintendência (prefeitura) de Curitibanos incendiada pelos sertanejos.
Distância: 100 km
          Choveu durante toda a noite em Caçador. A cidade estava precisando da água, pois a estiagem durara quase dois meses. E os sertanejos catarinenses não poderiam suportar mais um mês de seca, conforme ouvi de vários agricultores do lugar. Confesso que as confissões dos trabalhadores fizeram-me lembrar da força e da coragem dos moradores do sertão nordestino. Os caras agüentam até mais de um ano sem chuva. Quando um pecuarista de Timbó Grande me contou que várias reses haviam morrido e que era preciso da ajuda do governo, caso não chovesse, recordei das críticas – duras, diga-se de passagem – que ouço à política do governo Lula. Vezes sem conta escuto gente bradar: “esse papo de bolsa família é puro assistencialismo. Quem quiser que trabalhe para ganhar dinheiro”. Menos de dois meses de estiagem são mais do que suficientes para provar que pimenta nos olhos dos outros é colírio. E se você, nobre cúmplice meu, é meio desbocado, pode substituir os olhos e o colírio por outras palavras mais próprias. Acordei de madrugada e, egoisticamente, pedi a Deus para que fechasse as torneiras no dia seguinte. É brabo pilotar na chuva.
 12 reses haviam morrido nos últimos dez dias aqui
          Às sete horas fiz meu desjejum na companhia dos meus novos amigos. Minhas preces não foram ouvidas; a chuva persistia. Lá pelas oito o aguaceiro amainou e pude pegar a estrada. Não sem antes me despedir dos companheiros de QG. Dei uma parada na oficina e pedi para apertar a corrente, jogar um óleo nela e passar graxa. Depois foi só alimentar o alazão e deixar Caçador para trás. O asfalto molhado, e melado de barro, era uma ameaça à motocicleta. As muitas estradas vicinais são puro barro vermelho. Quando chove, o barro vira uma pasta que gruda nos rodados dos caminhões. Conclusão: os caminhões deixam um rastro enlameado no asfalto. É um sabão. Menos de vinte quilômetros de percurso foram suficientes para me alertar do perigo que me aguardava. Enquanto descia um morro vi alguns galhos de árvore no meio da pista. Diminuí a velocidade e quando cheguei à curva me deparei com uma carreta tombada. O motorista, que seguia no sentido Curitibanos-Caçador,  perdeu-se e invadiu a mão contrária. Parei a moto e logo chegou uma viatura da polícia. O caminhoneiro saiu ileso. O guarda me alertou: “Tá chovendo em todo o Estado. Prepare-se para pegar muita chuva”. Agradeci o aviso e segui.

Um aviso para ficar experto
          Quando cheguei a Lebon Régis fui até a casa de dona Nercina, a neta de Neco Pepe que tem um museuzinho em casa. Quando eu a visitara, no domingo, falei-lhe de um livro que contava a história do avô dela. Prometi-lhe fazer uma cópia e, quando fosse para Curitibanos, passaria passaria em sua casa e lhe entregaria. Nem a chuva forte impediu-me de cumprir a promessa, afinal de contas não sou nenhum presidenciável. Aproveitei o ensejo e fiz algumas fotos de uns bairros onde os moradores descendem dos caboclos espoliados da Guerra do Contestado. Quanta pobreza.
Bairro onde a maioria dos moradores descende dos caboclos da guerra
          Na beira da estrada que liga Lebon Régis a Curitibanos tem uma capelinha em homenagem a São João Maria. Claro que fiz umas fotos. Os 50 quilômetros entre as duas cidades foram sacrificantes. A chuva apertou. Os buracos da estrada, embora pequenos, aumentavam o risco de queda. É que a lâmina d’água esconde os “marditos”. É preciso manter os olhos bem abertos e os pulsos firmes, caso contrário, mais um número para as estatísticas de acidentes de moto. Passava das onze horas quando cheguei a Bundaritibunda – é como costumo chamar a cidade onde nasceu meu amigo Bruno. Não é falta de respeito, acredite. É pura brincadeira. Falta de respeito pela cidade quem teve foi o coronel Albuquerque, antes, durante e depois da guerra do Contestado. Curitibanos foi incendiada pelos jagunços, frisam certos historiadores. Na verdade foram queimadas a sede da superintendência (prefeitura), o cartório e as casas dos correligionários do coronel Albuquerque. Visitei o museu, fiz algumas fotos do local onde ficava a antiga prefeitura e me mandei.  
Capela de São João Maria - Lebon Régis

Praça da República - Destaque para o museu

           Almocei em Lages, na casa de um casal muito querido. A senhora é descendente da família Ramos, a maior oligarquia catarinense no período da Guerra do Contestado. Por volta das 14 horas peguei a BR-282 com rumo a Florianópolis. A viagem transcorreu sem nenhum incidente. Passava das 17h quando subi a rampa do prédio em que moro. Estacionei a motocicleta, tirei a bagagem e dirigi-me ao elevador.  Um banho quente e demorado me esperava. Depois do banho, estiquei-me na cama e vi minha mente ser sacudida por pensamentos, sentimento e certezas. Foram dez dias de contato com uma história que ainda pulsa no sertão de Santa Catarina. Dez dias de convívio com pessoas simples que acreditam em um santo – João Maria – que não merece nem um email do Vaticano. Dez dias de mergulho em um lugar cujas pérfidas e avaras atitudes de homens públicos transformaram em vergonha. Dez dias no seminário diocesano de Caçador, cujos seminaristas e padres, sem exceção, jamais serão esquecidos do meu coração. Dez dias vendo a miséria de muitos se dobrando a riqueza exploradora e maligna de tão poucos. Dez dias nas terras em que andaram homens que não aceitaram se dobrar ao canhão do tirano dominador. Dez dias aprendendo que uma história, por mais que os governantes queiram apagá-la, pulsa. E pulsa. E pulsa. Há tempos eu não chorava.

"Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira..."

Legiao Urbana
Composição: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nono dia - "Plante pinus"

Exposição - Museu de Caçador
        Hoje é o nono dia da expedição. Acordei às seis da manhã com a música do padre Lídio. Chovia forte em Caçador. Demorei um pouco a me levantar e quando cheguei à cozinha o pessoal já se divertia com o café e com a conversa descontraída. É importante ressaltar que as refeições no seminário são sempre muito animadas. Em tudo a turma acha um motivo para risadas. O padre Lídio é sempre alvo de brincadeiras. Fico admirado com a capacidade que ele tem de entender a rapaziada. Ao mesmo tempo em que é austero, é amoroso. Minhas visitas aos antigos redutos acabaram. Só me resta ir a Três Barras e Canoinhas, no norte do Estado – que não fui ontem devido a chuva. Farei isso amanhã, no décimo dia. Sendo assim preferi fotografar a cidade de Caçador, entregar alguns livros que peguei emprestado do historiador Nilson Thomé e do museu, entrevistar profissionais que pudessem falar sobre o pinus elliotis. É que o pinus invadiu as terras do Contestado, conforme venho escrevendo. Para todo lado que a gente olha vê plantações do pinheiro americano.
          A chuva não dava trégua. Ficava difícil sair de moto para andar dentro da cidade. Resolvi ir a pé. O seminarista Édson de Bortoli me emprestou um guarda chuva. As horas seguintes iriam mostrar que o objeto servia para eu guardar a chuva; na cabeça, nos ombros e no bolso, se preferisse. Fui até a FUNDEMA – Fundação Municipal do Meio Ambiente. Entrevistei o presidente da instituição, André Francisco Canalle. Ele foi enfático: “Se proibir o plantio do pinus a região para”. E completou: “Sou a favor do pinus”. Dalí eu dei uma passada no museu e devolvi o livro que pegara emprestado com meu amigo Júlio Corrente, coordenador do museu. Já passava do meio dia e ele me deu uma carona até uma churrascaria. Eu já conhecia o lugar e estava ávido para saborear o melhor sagu do Brasil. Olhe que eu entendo de sagu. E posso garantir: em Caçador está o melhor. Fiz a digestão enquanto me dirigia à EPAGRI.
          Na EPAGRI entrevistei Dorvílio Buffon, técnico que dá orientação para agricultores. Ele não titubeou: “Essa história que o pinus seca as águas é bobagem. E também a terra não fica empobrecida, ela já é pobre”. Depois me revelou como costuma orientar os agricultores: “Plante pinus”. Saindo de lá eu fui até a FATMA e conversei com o engenheiro agrônomo Aido Ortolan. Ele confirmou o discurso de Dorvílio: “O pinus não empobrece o solo nem seca as águas. Isso é balela. Existem estudos que comprovam o que estou falando. Nossa região tem características favoráveis à plantação do pinus”. Saí da FATMA e fui até a casa de Nilson Thomé. Conversamos um pouco e devolvi-lhe o livro que pegara. Voltei para o seminário e avisei para o pessoal que estaria indo embora na manhã seguinte. Fomos até o supermercado e compramos algumas coisas para nos confraternizarmos.
          Foi aí que o padre Gilberto Tomazi, 40 anos, contou-me uma que aprontaram com o padre lídio. Pegaram uma correspondência que um político enviara para o ancião e botaram R$ 2,00 dentro. Venhamos e convenhamos, ô voto barato! Enquanto todos riam, padre lídio só balançava a cabeça. Depois defendeu-se: “Eu sabia que era brincadeira deles”. Se sabia ou não, vou ficar na dúvida. Amanhã eu vou a Canoinha e depois a Três Barras. No fim do dia voltarei para Florianópolis. Minha estada em Caçador chegou ao fim. Foi muito bom. O convívio com os seminaristas e padres não poderia ter sido melhor. Levarei saudades do “Di Cáprio", do Clayton, do Édson, do Edilson e do “monge  João Maria", conhecido por Hilton – todos seminaristas. Agradeço muito a presteza e boa vontade dos padres Gilberto Tomazi, João Casara e Lídio Milani. Até a próxima, Caçador.
Caçador

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Oitavo dia - permita-me a rima

Museu do Contestado -  Matos Costa
Oitavo dia da expedição
Destino:
 Acampamento das tropas do general Setembrino de Carvalho – Porto União
Túmulo do capitão Matos Costa – Matos Costa
Madeireira Lumber – Calmon
Distância:
Porto União – 84 km
Matos Costa – 49 km
Calmon – 21 km

          Acordei às quatro e meia da manhã com o estampido dos trovões. “Ih, minha viagem não será fácil”, pensei. Cinco horas - começou a chover forte. Dez minutos se passaram e o aguaceiro cessou. Seis horas - musica para acordar. Seis e meia - café da manhã. Chuva. Oito horas - abastecimento da moto e calibragem dos pneus. Na hora de sair, novo pé d’água. Quando a chuva deu uma trégua eu segui na direção de Porto União, cidade onde as tropas do general Setembrino desembarcaram para combater os sertanejos catarinenses. Foi lá, também, que o coronel João Gualberto acampou, antes de ir para o Irani combater as hostes de José Maria, conforme contei no segundo dia desta expedição. Confesso que saí de Caçador em dúvida: “Vou a Porto União ou vou direto a Três Barras, onde ficava a sede da madeireira Lumber, que varreu as árvores de Santa Catarina no início do século passado?” Poucos quilômetros de estrada me fizeram decidir por Porto União.
Oh, dúvida cruel
         Foram necessários apenas cinco quilômetros para decidir meu rumo. Uma forte chuva impedia que eu ultrapassasse os 70 km/h. A água que descia das barrancas criava grossos rios sobre o asfalto. Minha sorte era o asfalto novo. Só quando me aproximei de Porto União foi que encontrei buracos na pista – nada de mais para quem peregrinou por Timbó Grande. O vento lateral empurrava a moto para fora da pista. Eu precisava ter punhos firmes e muita perícia, principalmente nas curvas. Ponto positivo? Não havia tráfego. O frio, entretanto, me forçou a usar uma balaclava de lã. Resultado: meus óculos e a viseira do capacete embaçavam a todo instante. Era preciso abrir a viseira o tempo todo. Aí já viu o friozão, não é? Para complicar mais, a cerração aumentava a medida que eu subia a serra na direção de Matos Costa. Os mais de 1.200 metros de altitude da cidade tornam-na uma morada para o frio e para a neblina. A roupa de cordura evitava que o Gile se molhasse. A luva que eu comprara na véspera da viagem, revelou-se resistente à água. Não impedia, porém, que o frio castigasse meus dedos. O problema maior eram os pés molhados. A bota não suportou cinco minutos de chuva. “É, Três Barras, vais ficar para outro dia”, resolvi.
Pilotagem exigia atenção redobrada
          Por volta das dez da manhã cheguei a Porto União. Meu amigo Delmir Valentini, historiador, indicou-me um nome para procurar na cidade – seria meu guia. Parei em um posto de gasolina e perguntei a uns policiais: “Vocês sabem onde posso encontrar o professor Helói Tonhão?” Os fardados trocaram cochichos e formataram uma resposta simpática: “Conhecemos um professor Helói; o senhor vai achá-lo na universidade”. Só depois percebi que a resposta foi simpática. Ensinaram-me como chegar à universidade onde trabalha “Tonhão”. Fui recebido pelo professor com muito carinho. Ele levou-me para conhecer o local da antiga estação, onde as tropas militares desembarcavam e acampavam em um plano logo abaixo. Foi comigo por diversos lugares e não poupou o corola pelas ruas da cidade. De fato, o Delmir tinha razão: “Tonhão”, permita-me a rima, era um perfeito anfitrião. Voltamos para o escritório dele e quando ele me presenteou com um livro que escreveu sobre o Contestado foi que percebi a “simpática” resposta dos policiais. O nome do cidadão era Helóy Tonon. Lembrei da lição: “cuidado ao anotar o nome de uma fonte”, orientou-me, certa vez, meu amigo e mestre Billy Culeton.

Gramado à margens do rio Iguaçu onde acampavam as tropas de Setembrino

Professor Helóy "Tonhão"
         Por volta das onze e meia peguei a estrada de volta. Sorte minha, não chovia. O verde do pinus poluía o horizonte. Veio-me à lembrança as palavras de vários agricultores com os quais conversei nesta jornada: “O pinus vai acabar com as nossas águas”. Parei em São João dos Pobres, atual Matos Costas e fui ao museu. O estabelecimento estava fechado. Perguntei onde morava a administradora do guardador de histórias. Encontrei com facilidade. Perguntei se ela podia abrir o museu e depois me mostrar o local exato em que mataram Matos Costa, o militar que entendeu a causa dos sertanejos. Eu trazia na bagagem um livro autografado pelo professor “Tonhão”. Ele aproveitou minha visita e pediu que eu entregasse o exemplar para ela, que foi aluna dele no curso de História. Josete foi muito solícita. Neta de uma bugre e de um polaco, Josete Dambrowski desdobra-se para manter o museu aberto. Ela guiou-me até o túmulo do capitão. É perto da cidade. Bastaria pegar a SC que leva à BR – 153. Não deu um quilômetro de estrada, se é que podemos chamar aquilo de estrada. A terra, ou melhor, os buracos estavam cheios de lama. E eu que pensava não me deparar mais com o descaso de governantes, enlameei novamente a montaria. Não deveriam ter mudado o nome do município; tinham que ter mudado o município. Continua pobre.
Todos os caminhos levam ao pinus
 
Historiadora luta para manter  museu em Matos Costa

Túmulo de Matos Costa
          Às três da tarde acelerei na direção de Calmon. Calmon tinha, na época da Guerra do Contestado, uma serraria da madeireira Lumber. A empresa era uma espécie de instituição irmã da Brazil Railway – a construtora da estrada de ferro que provocou o desalojamento dos moradores da região. A sede da Lumber era em três Barras. Os jagunços revoltados botaram fogo na serraria e mataram alguns funcionários. Fui à prefeitura e perguntei se algum funcionário poderia me explicar onde ficava a antiga serraria. A recepcionista, assustada, respondeu que “só quem sabe explicar é o JB, e ele não está na cidade”. Perguntei se niguém, além do citado, conhecia a história da cidade. A cada pergunta minha, a assustada ia até uma sala e voltava com uma resposta vazia. Só quando eu pedi o nome dela foi que ela correu até a saleta e voltou acompanhada de uma senhora que não entendia nadica da história do município. Depois veio um rapaz que se dizia entendedor da cidade. Perguntei em que lugar ficava a Lumber. Ele disse que essa parte antiga ele não conhecia. Perguntei se é possível conhecer uma cidade quando se ignora sua história e ele assumiu: “É, realmente, não conheço”. Nem vou falar a respeito da prefeitura. Um prédio luxuosíssimo que, fora de brincadeira, quase comporta, apenas no hall, a cidade inteira.
Aqui ficava a antiga serraria da Lumber
Prefeitura é maior que a cidade
          À duras penas localizei Márcio Fragoso, um guia turístico muito educado e prestativo. Ele mostrou-me o terreno onde ficava a antiga serraria e contou-me um pouco sobre o município. Passava das quatro da tarde quando me despedi de Fragoso. Por volta das cinco cheguei à prefeitura de Caçador. Depois segui para o meu QG. Um banho quente e demorado me restabeleceu. Por volta das vinte horas jantei na casa do meu amigo, agrimensor Juruá. Onze horas, hora de dormir.




domingo, 19 de setembro de 2010

Sétimo dia - "Se não for o pinus é o que? "

Sétimo dia da expedição


Destino: Santa Maria – Município de Timbó Grande
Distância: 42,5 km – 14 km de asfalto e 28,5 de estrada de terra

          Acordei um pouco antes das sete. Tomei café e conversei um pouco com meus amigos de QG. Saí de Caçador exatamente às 8h30. O frio era intenso devido ao vento forte e constante. Peguei o rumo de Lebom Régis, com destino ao vale de Santa Maria – reduto onde se travou o grande combate do exército. Saindo de Caçador eu segui placa no sentido do aeroporto. Um pouco antes do aeroporto vi uma placa que indicava Timbó Grande. O pedregulho sinalisava meu rumo. A estrada estava deserta. Minha companhia era o vento gelado. Ele não dava trégua. Vez por outra valsava na minha frente e a terra seca, castigada por quase dois meses de estiagem, espalhava uma poeira agitada em forma de redemoinho. Nem preciso dizer que a estrada era ainda pior do que a de ontem. Uma certeza me invadiu: para se abrigar por ali, os sertanejos queriam mesmo fugir de tudo e de todos. Sigo devagar, parando aqui e acolá para tirar umas fotos.

Entrada para Timbó Grande/Santa Maria


A festa do vento
Êta,estrada!
A estrada corta o rio ou é o contrário?

          Por volta das 11 horas chego ao lugar onde está o marco do Contestado. Daqueles colocados pelo governo de Espiridião Amim nos locais de combate. Fica do lado esquerdo da estrada, assim que se desce a serra. É bom sempre pedir informações aos moradores – são poucos, mas prestativos. O monumento estava destruído, as placas jogadas no chão. É o abandono da história, por parte dos governantes. Encosto cada placa na moto e faço uma fotografia. Se eu quisesse poderia levar para casa. Não havia ninguém para cuidar. Um morador local, João Soares, 29 anos, me disse que um caminhão da Celesc bateu no monumento quando manobrava. Segundo ele, já faz mais de três anos. Saí de lá e fui conhecer o cemitério dos jagunços. Quem me levou até lá foi Antenor Meireles Prestes, 58 anos, nascido e criado no lugar. “Meu avô foi jagunço. Ele contava as histórias do tempo dos jagunços e chorava. Começava mas não conseguia terminar. Foi muito sofrimento”, lembrou. Meireles me conduziu até o antigo cemitério. Na verdade, ao que sobrou da cidade dos pés juntos. A maior parte do local foi transformada em açude pelo proprietário, o ex prefeito de Timbó grande.
O que sobrou do marco do Contestado
Placas estão abandonadas

Açude invadiu o cemitério

Meireles - "Meu avô foi jagunço"
           Dalí eu fui para Timbó Grande, onde os jagunços se reorganizaram depois da destruição de Santa Maria. Na frente da igreja católica da cidade tem um marco do Contestado em perfeito estado de conservação. Para alguns historiadores, a igreja foi erguida exatamente no lugar em que ficava a casa de Adeodato, o último líder dos sertanejos. Em seguida fui entrevistar o prefeito de Timbó Grande, Valdir Cardoso dos Santos, 55 anos. Durante todo o trajeto pelo interior do município percebi a imensidão das plantações de pinus elliotis. Perguntei a ele se isso não causaria um desequilíbrio ambiental e ele respondeu que “se não for pinus vai ser o que? “ Pergunto o motivo do descaso com o sítio histórico e ele dize que é de Caçador e mora em Timbó apenas há 26 anos, e por isso não conhece bem a parte histórica do município. Comprometeu-se, porém, a restaurar o marco que está em Santa Maria. “O que tem na frente da igreja foi em quem restaurei”, informa o político e plantador de pinus. 
Igreja onde ficava a casa de Adeodato
Pinus, "Se não for ele é o que?"
           Só me restava voltar. Decidi retornar por outro caminho, pelo asfalto que conduz a Santa Cecília. Dei  uma volta enorme, mas o trajeto compensa porque a estrada é ótima e praticamente não tem trânsito. Ao passar em Lebom Régis fui visitar a casa de dona Nercina do Valle Rocha. O avô dela era padrinho de Adeodato e foi assassinado pelo chefe dos jagunços. Ela mora em uma casa edificada no mesmo local em que residia o avô, Neco Pepe.Nos fundos da residência tem um túmulo erguido no local onde o avô foi fuzilado pelo afilhado. “Foi uma covardia, assassinar o padrinho... Ele trabalhou para meu avô. O pai dele era compadre do meu avô...”,  indigna-se dona Nercina. Quando Adeodato matou Neco Pepe, incendiou a casa. A única coisa que não queimou foi um portão de imbuia. A peça está guardada até hoje dentro de um paiol – claro, fiz uma foto. Esse episódio é contado por Maurício Vinhas de Queiroz em seu livro Messianismo e Conflito Social. Depois de um ótimo café da tarde retornei a Caçador. Estacionei a moto no seminário um pouco antes das 18h30.
Neta de Neco Pepe preserva o lugar onde mataram seu avô


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quinto dia - São João Maria não morreu

          Ontem fiquei em Caçador. Aproveitei para organizar o material coletado até o momento – vídeos, fotos e áudios. Fiz também algumas entrevistas na cidade. E, confesso, descansei um pouco; a viagem a Taquaruçu foi desgastante.

Quinto dia da expedição

Destinos:

Perdizinhas – município de Lebon Régis

Distância de Caçador: 36 km

Serra da Esperança – Município de Lebon Régis

Distância de Caçador: 51 Km


Acesso a Perdizinhas

          Saí de Caçador por volta das 8h30. O céu estava azul, azul. Não havia uma nuvem, sequer. Mas o friozinho e a lição que recebi, quando fui a Taquaruçu, me obrigaram a usar a pesada roupa de proteção. Perdizinhas fica no município de Lebon Regis, há cerca de 40 quilômetros de Caçador. O asfalto é ótimo, mas não vai até perdizinhas. Um trecho é de pedregulho. Para variar não existem placas indicando o lugar. Tudo bem. Quando você passra pela ponte sobre o rio dos patos pode entrar no primeiro acesso à esquerda. É uma estrada de terra. Em se tratando de sítios históricos do Contestado, é mais do que esperado. Aí é só seguir por uns três quilômetros e prestar atenção em uma casa do lado direito da estrada. Em baixo das árvores há um marco do Contestado colocado na época em que Espiridião Amim era governador do Estado. Ao lado do monumento, que por sinal está em completo abandono, pode ser visto uma taipa – uma espécie de muro de pedras encaixadas, muito comuns na serra catarinense – onde os caboclos eram assassinados pelo exército brasileiro. Conforme alguns historiadores, os sertanejos eram colocados dentro do recinto e depois queimados. Maurício Vinhas de Queiroz, que esteve no local em 1954, destaca em seu livro, Messianismo e Conflito Social, que em perdizinhas o capitão Vieira da Rosa havia estabelecido seu comando. Vinhas é um dos historiadores que denuncia a barbárie praticada pela força catarinense - "geralmente os cadáveres eram queimados em grandes fogueiras de grimpas de pinheiro". Perdizinhas foi palco de execuções sumárias e outras arbitrariedades da parte de quem deveria estabelecer a ordem e a lei.
 
Monumento depredado - ao fundo, taipa usada para servir de crematório


          Em Perdizinhas conheci Silvério Nordio Palhano, 21 anos. Ele estava arando a terra para plantar cebola. Silvério mora com os pais e trabalha na agricultura. Ele me mostra os lugares onde costuma encontrar balas de fuzil do tempo da guerra. E me presenteia com duas. Depois vai comigo tentar achar alguma onde o trator acabou de arar. “Aqui eu encontrei doze balas dentro de um cupinzeiro”, diz enquanto aponta para o terreno. Não tive sorte. Tudo bem, já botara no bolso minha herança da guerra. Eram quase 11 horas, o sol tinha dado um pontapé no frio e a roupa de moto me fazia suar em torneiras. A temperatura na região é assim mesmo, muda em questão de poucas horas. Nos despedimos e segui para a Serra da Esperança.


Silvério Nordio

Silvério procurando bala de fuzil

 
O calor me obrigou a trocar de roupa
        

Isso é que é estrada
          Se você que leu o terceiro dia da expedição, sabe o que falei sobre a estrada para Taquaruçu. Agora pense naquela estrada e piore 54 vezes, é a estrada para a Serra da Esperança. É uma buraqueira só. Para piorar, mais de trinta dias sem chover deixa um pó sobre o caminho. A coisa fica insuportável quando os caminhões carregados de madeira passam. Aí era preciso parar a moto. Não dava para ver nada. As pedras soltas são uma ameaça aos motociclistas. Os caminhões, do tipo bi-trem, fazem valos no terreno. É preciso perícia para conduzir a moto. A receita é pneu cheio para não furar, aceleração reduzida e constante para segurar a moto e evitar freadas bruscas. Pilotar devagar, na minha opinião, é pior. Pisar em um seixo a 15 por hora é queda certa. Eu acelerava a magrela e quando tinha uma pedra maior pela frente atacava-a pelo meio. Agredia com o pneu dianteiro e firmava o guidom. Claro que em certos lugares a velocidade precisava ir a quase zero, mas em seguida o giro do motor subia. Tinha vezes que a moto parecia deslizar sobre as pedras soltas. A traseira balançava para um lado e para o outro. Uma curva mais traiçoeira me fez passear pela vala que margeia a estrada. Foi só um susto. Analisei o terreno e tornei a acelerar. 

Caminhões bi-trem estragam a estrada
          Na Serra da Esperança conheci o senhor Virgílio Leão de Carvalho. O homem tem 102 anos. Mora sozinho em uma tapera. Por ter sido indicado pelo filho dele, fui recebido com muito agrado. Contou algumas histórias da época dos redutos e disse que o lugar onde mora era povoado por jagunços. “aqui, o único que não era jagunço era o meu pai. O resto, todo mundo era”. Não vou falar muito sobre ele porque em breve postarei um vídeo dele. Fui convidado para almoçar na casa de Antenor Vieira de Carvalho, filho de Virgílio. Depois do almoço fui visitar uma fonte onde, segundo os moradores, São João Maria pousava ao lado. Para eles a água da fonte é milagrosa. Ainda hoje os caboclos levam os filhos para serem batizados lá. Quem me conduziu ao lugar foi Aloir Alves de Oliveira, 30 anos. Foi 1,5 quilômetros de subida íngreme até a fonte milagrosa. Quando voltávamos Aloir surpreendeu-me com uma pergunta: “O senhor acredita que São João Maria não morreu?” Disfarço e devolvo a pergunta. Fico mais surpreso ainda: “São João Maria não morreu”, enfatizou Aloir. Mais tarde, já em Caçador, fiz a mesma pergunta a um seminarista e ele me deixou desnorteado: "São João Maria nao morreu", respondeu Hilton Wzorek, 17 anos, natural de Canoinhas.

Virgílio Leão, 102 anos
Aloir na gruta/fonte de São João Maria


Hilton Wzorek - seminarista crê que São Joao Maria não morreu

          Depois disso, fui até ao monumento erigido em homenagem aos sertanejos mortos nas lutas que banharam de sangue o sertão catarinense. Já passava das 15 horas quando acelerei a motoca na direção de Caçador. Quando cheguei, parei em uma padaria e fiz um lanche. Estava morto de fome. Cheguei  no bagaço ao meu QG. Tomei um banho saí para fazer outra entrevista.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Terceiro dia da expedição - Não chora, china véia


Taquaruçu - Sítio de Pedro Felisbino

Objetivo: chegar a Taquaruçu – primeira cidade santa dos sertanejos.

Distância de Caçador a Taquaruçu: 79 km.

Tempo de viagem (estimado): 2h



          Acordei às seis da matina com a música que o padre Lídio Milani usa como despertador no seminário. Estava muito cansado e fiquei um pouco mais na cama. O friozinho de Caçador convida sempre para uns minutinhos a mais debaixo do edredom. Às sete tomei café. Quando estava saindo do refeitório tive a grata visita do padre Lídio. Minha saída para Taquaruçu teria que aguardar um pouco. Padre Lídio é um homem muito sábio e puxa conversa para me alertar sobre o fim do mundo. “É o apocalipse, meu filho”, constata quando analisa a postura dos governantes mundiais. Instigo o velho sacerdote com algumas perguntas e ele não perde a pose. Responde cada uma com serenidade e lucidez misturados com conhecimento. Padre João Casara chega e fazemos, eu e ele, uma platéia para o discurso inflamado de Milani. Não poupa ninguém; nem a cúria romana. Vale ressaltar que as oitenta e cinco primaveras não tiraram-lhe o bom humor. A conversa se desenrola com muitos risos e indagações. Desembaraçado, não titubeia nas respostas. Quando o assunto passa à política ele antecipa: “Não vou votar na Dilma”. E completa: “Vou votar na Marina”. O padre João pisca o olho para mim e alfineta o idoso: “Mas Marina é crente, padre. O senhor vai votar numa crente?” Ele dá o xeque mate: “É cristã, isso é que é importante”. O papo vai por uma meia hora. Peço-lhe uma entrevista e ele promete dar. Disponibiliza-se a responder qualquer tipo de pergunta.

          Tomo banho e sigo para Taquaruçu. Passo antes no posto de gasolina e alimento o alazão. Os raios solares me enganam e opto por não colocar a calça própria para frio e chuva. É um equipamento que tira muito a mobilidade de quem o veste. E se abdiquei da calça, renuncio também as botas. Um jeans e uma botina caem bem, avalio. Ledo engano.

A estrada: 
 

Portal turístico - Fraiburgo


Entrada para Taquaruçu e Frei Rogério



 
         De caçador até o trevo de Videira a SC-453 mostra-se em ótimo estado. É uma mesa de bilhar com aproximadamente 30 quilômetros. Chegando ao trevo segue-se na direção de Fraiburgo – terra da maçã. Aí a porca torce o rabo. É um tal de buraco no atacado que Deus me livre. Minha sorte é a moto off-road. A suspensão trabalha alucinadamente. Depois de atravessar toda a cidade e passar o portal turístico, pega-se o acesso que conduz à BR-470. Nem imagine encontrar placas para Taquaruçu. Marque 4km após o trevo e olhe para uma estrada de terra à esquerda, em frente a um ponto de ônibus. É o caminho para Frei Rogério e Taquaruçu. Avisaram-me que havia placas. É, havia. Agora sim, “cumpade”, o bicho pega. São 26 km até a Cidade Santa de Taquaruçu. Pedras soltas, buracos e curvas vão se misturar na tentativa de impedir minha chegada ao local onde os sertanejos se organizaram pela primeira vez. Eu sabia que a estrada tinha muita ponta de pedra e calibrei os pneus com a maior pressão possível. A medida evita possíveis furos na câmara de ar, mas deixa a montaria nervosa como o “diacho”. Procure placas para Frei Rogério. Você passará pelo Faxinal dos Carvalhos e, com um pouco de sensibilidade, vai se perguntar se mudou de país. Caso sinta-se perdido, pergunte aos trabalhadores que estão nas muitas plantações de alho e cebola que margeiam a estrada. Não espere pelas placas, elas são encantadas.
 
O melhor trecho da estrada para Taquaruçu

Taquaruçu

          Cheguei ao museu de Taquaruçu quando se aproximava das 11 horas. Perguntei onde ficava a casa de Pedro Felisbino – um agricultor historiador. Mais umas subidas e descidas e vi o potreiro que leva à propriedade do escritor de voz de caboclo. Quem me recebeu foi a esposa dele, Lora Felisbino. “Ele foi ver umas vacas, mas ta chegando. Pode entrar para esperar por ele”, convidou com uma simpatia ímpar. Conversamos um pouco e saboreei uma maça crioula – colhida na propriedade. Aproveitei para limpar a vista com a paisagem do lugar. Imaginei Tomaz Antônio Gonzaga escrevendo Márilia de Dirceu em um lugar como aquele. Não demorou e Pedro chegou. Bem na hora em que eu ajudava Lora a botar uma vaca para dentro do sítio. O sorriso dele é capaz de fazer Mao Tsé-Tung desmanchar o rosto taciturno. Felisbino tem 66 anos e nasceu em Santo Amaro da Imperatriz, município da grande Florianópolis. Mudou-se para Taquaruçu aos 8 (ou seria 10?, ele não sabe ao certo)anos, acompanhando os pais que subiram a serra por questão de saúde, ou falta dela. Desde a mais tenra idade viu-se rodeado por caboclos remanescentes dos “tempos dos redutos” – a denominação Guerra do Contestado é uma construção recente. Conheceu antigos protagonistas da guerra. Um dos pares de frança, Noratão, contou-lhe detalhes sobre as “peleias” contra o exército. Ao meio dia almoçamos uma comida maravilhosa feita pela companheira de Pedro. Sentamos à mesa, Pedro, Lora, Pedrinho – neto -, e eu. Como estamos nas comemorações da Semana Farroupilha o guri me apareceu todo piuchado, vindo da aula. Puxou um violão e tocou uma moda gaúcha. Não fiquei para trás e arrisquei uma não chora minha china véia, não chora. Tava feito o salseiro.


Pedro Felisbino mostra bombas detonadas sobre a cidade

          Após a refeição fomos conhecer o solo sagrado da antiga cidade. Taquaruçu era, à época, distrito de Curitibanos. E disputava com esta o primado da região. Taquaruçu era, inclusive, maior e mais desenvolvida que a rival. Quem ganhou, entretanto, o estatus de município, foi Curitibanos. Isso porque o homem forte da povoação era o coronel Albuquerque, apaninguado dos Ramos. Sendo o governo do Estado exercido por um Ramos, fica claro o motivo de Taquaruçu ter sido escanteada. O fato é que em Taquaruçu morava o coronel Henrique Almeida, adversário político de Albuquerque. E, só para você entender, quando José Maria, um curador de ervas, veio para a festa de Bom Jesus do Taquaruçu – uma espécie de sírio de Nazaré de serra acima – os sertanejos fizeram a animação durar mais do que devia. Albuquerque, enciumado, instigou a força policial catarinense a expulsá-lo do lugar. Por isso ele foi para o Irani com alguns seguidores. Para ser mais exato, ele voltou para o Irani, pois de lá viera. E no Irani José Maria foi morto. O que poucos sabem é que o Irani ficava nos chamados Campos de Palmas, e um coronel de Palmas/PR, o Amazonas Pimpão, já se apoderara das terras. Uma grilagem mais comum na época do que propina para políticos hoje em dia. Ou seja, José Maria é expulso de Taquaruçu por causa de um coronel catarinense e cai nas mãos de outro, paranaense. Passado quase um ano da morte de José Maria, os sertanejos se reorganizam em Taquaruçu. Criam uma cidade onde acreditam que a igualdade reinará. Albuquerque inventa que eles estão proclamando a volta da monarquia e promove o massacre do lugar pelo exército brasileiro. Nas primeiras investidas das forças legais sobre Taquaruçu os sertanejos saem vitoriosos. Receosos de um massacre os homens se retiram do lugar e deixam apenas mulheres, crianças e idosos na cidade. Ficou também uma pequena milícia de 70 homens para conter um possível ataque. Acreditavam na benevolência dos militares. “Santa ingenuidade, Batman”, diria Hobin”. No raiar do dia 8 de fevereiro de 1914 as bombas varreram Taquaruçu do mapa. Os 70 homens entrincheirados para uma possível defesa dos mais fracos não tiveram chance. Claro que algumas pessoas escaparam e criaram outra cidade santa. Surgiu Caraguatá, que visitarei em breve. 

Taquaruçu foi arrasada duas vezes - pelo fogo do exército e pelas águas da indiferença

          Pedro me leva para conhecer o museu. Ele iniciou o curso de história aos 61 anos e é autor de dois livros – Voz de Caboclo e Frei Rogério. Peço para conhecer o lugar exato onde ficava a cidade santa de Taquaruçu. Ele aponta para um açude. “Ali ficava Taquaruçu. Fizeram um açude”, lamenta com voz embargada. Segundo ele, o proprietário do terreno ficava incomodado com a presença de pessoas interessadas em conhecer o lugar.
          E resolveu afundar a história.
          O historiador me indica o lugar exato em que ficava a igreja: um poste de energia. “Quando eu era mais jovem a gente jogava bola em cima da antiga cidade. Às vezes achávamos ossos inteiros. Uma vez pegamos um braço e comparamos com o nosso para saber se a pessoa era maior ou menor que a gente”, recordou. Fico pasmo com a ignorância dos governantes catarinenses.
          Aonde já se viu, imagino, alagar um sítio histórico!

Antigo caminho das tropas - a vegetação e os sedimentos apagam os vestígios da história
           Fizemos uma visita às antigas estradas dos tropeiros e fiquei extasiado só em pensar que naquele chão caminharam homens e mulheres valentes, espoliados por coronéis, abandonados pelo poder público e incompreendidos pelos religiosos da época. Tristeza e alegria podem coabitar no coração de um ser humano?, sim, descobri naquele momento. Mais uma vez comprovo que o Contestado é, para os donos do poder, uma ferida que precisa ser escondida, já que não pode ser curada. Pedro me levou para conhecer uma família cabocla e aproveitei a ocasião para entrevistar um senhor de 80 anos, cujos pais foram sobreviventes do massacre à cidade. Depois voltamos para a casa dele onde eu deixara a motocicleta. Eu não poderia recusar o lanche. Quando terminamos faltavam dez minutos para as seis. O retorno não seria dos mais fáceis.

Casa de caboclo


Sebatião Moreira - Os pais escaparam do massacre de Taquaruçu


A volta

          A estrada esburacada exigia que eu pilotasse o maior tempo possível em pé. Os pneus com calibragem alta, para evitar furos, deixavam a moto menos aderente e exigia uma pilotagem tracionada o tempo todo. As pedras soltas ameaçavam me derrubar a cada curva – que não eram poucas. Para completar, de vez em quando o por do sol lançava raios em minha direção. Nessas horas eu precisava guiar com uma mão só. A outra eu usava para colocar acima dos olhos e diminuir a sabotagem do astro rei. Com um pequeno detalhe: eu precisava chegar à Videira antes de escurecer. Em setembro os dias já começam a se alongar mais, em relação ao inverno. Todo o trecho de estrada de terra e o asfalto até Videira exigem boa visibilidade da parte de um motociclista. Qualquer vacilo, um abraço. Infelizmente não pude parar e fazer fotos do pôr do sol. O verde claro das plantações de cebola, alho e aveia contrastavam com o escuro das frondosas araucárias. Retive nos olhos, foi o jeito. Mantive o motor da moto em giro alto e cutuquei no acelerador. Acho que fiz o percurso em tempo record para um motoqueiro. Passei em Fraiburgo quando a noite dava o ar da graça. A moto não respeitava os buracos da estrada e eu me segurava no guidom. Quando cheguei ao trevo ainda havia um lusco fusco. Ufa!

          De videira a Rio das Antas foi tranqüilo. A pista é bem sinalizada. A escuridão desbancou os últimos vestígios do dia. Aproveitei os faróis traseiros de um carro à minha frente e me deixei guiar. O veículo parou em Rio das Antas e fiz os últimos 20 quilômetros sob a pouca luz da moto. Já eram sete e vinte da noite quando adentrei ao QG. As mãos doiam de tanto frio. As luvas que comprei na Hparts revelaram-se modestas para enfrentar as baixas temperaturas. logo lembrei as palavras do vendedor: "Estas luvas - disse o mal profissional - são usadas pelo pessoal que vai de moto para o Chile". Não chamarei o rapaz de mentiroso porque mentiroso é o praticante de mentiras. Talvez essa tenha sido uma isolada, o que não o torna um mentiroso. Já a empresa, sinceramente. Hora de tomar um banho e sair para conversar com um agrimensor. O homem é filho de outro agrimensor, já falecido, que fez o mapeamento das terras onde ficava a última cidade santa cabocla. Ele me apresentou alguns mapas cartográficos datados de 1925; um achado. Por volta das 23h30 retornei. Caindo de sono ignorei o computador. Só acordaria no dia seguinte. Boa noite, padre Lídio.